A primeira infância — período que compreende os primeiros anos de vida — é o momento em que se constroem as bases do desenvolvimento cognitivo, emocional e social do ser humano. Contudo, em uma sociedade estruturalmente desigual, os corpos e as subjetividades das crianças negras são atravessados desde o berçário por práticas cotidianas de diferenciação, negligência e racialização. Como garantir um futuro saudável sem enfrentar o racismo na raiz da formação humana?
A TRAJETÓRIA DO AMMA PSIQUE E NEGRITUDE
Fundado em 1995 por psicólogas negras, o AMMA Psique e Negritude é uma organização da sociedade civil referência na investigação e no enfrentamento dos impactos psicológicos e subjetivos do racismo. Com quase três décadas de atuação ininterrupta, a organização trabalha na desconstrução psíquica e política das discriminações de raça e gênero, atuando como um centro de formação, pesquisa e referência no Brasil.
O trabalho do Instituto AMMA reforça que o cuidado antirracista na primeira infância é indispensável para prevenir o sofrimento psíquico e garantir um desenvolvimento pleno e saudável para todas as crianças. Acolher os bebês e crianças pequenas em sua totalidade exige não apenas sensibilidade afetiva, mas também fundamentação científica e compromisso ético das instituições de ensino e de saúde.
“O desenvolvimento da autoestima e do autoconceito se dá nos primeiros anos de vida, justamente pelo modo como a criança é tratada pela família e nas relações que estabelece nos diversos ambientes sociais. Garantir relações raciais saudáveis na infância é um dever coletivo e urgente.”
A URGÊNCIA DE UMA LEITURA ANTIRRACISTA DA INFÂNCIA
Estudos recentes no campo da psicologia social e da educação infantil demonstraram que crianças entre 8 meses e 3 anos de idade já começam a perceber as diferenças físicas entre si e os pares. É nessa fase crucial que o olhar do adulto, os gestos de afeto, a atenção dispensada e o acesso aos brinquedos moldam o sentimento de pertencimento e valor social da criança.
Muitas vezes de forma velada ou não intencional, práticas institucionais nas creches e pré-escolas reproduzem o apagamento e a rejeição. Desde a preferência no acolhimento físico até a hipersexualização e adultização precoce de meninos e meninas negros, o racismo atua desumanizando os corpos infantis e gerando marcas profundas na saúde mental.
DESTAQUES DA PESQUISA & DIAGNÓSTICO: A obra é fruto do projeto “Relações étnico-raciais e primeira infância: aspectos psicossociais, educacionais e culturais”, coordenado pelo AMMA em parceria com seis grupos de pesquisa universitários de diversas regiões do país (UFOPA, UFSCar, UNILAB, UFMA, UNICAMP e AMMA). A investigação reúne etnomethodologias, revisões de escopo e estudos de campo que escutam diretamente as crianças, suas famílias e comunidades quilombolas e imigrantes.
CONHEÇA A OBRA: “PRIMEIRA INFÂNCIA E RELAÇÕES ÉTNICO-RACIAIS”
Para preencher a lacuna na literatura científica e oferecer subsídios práticos para educadores, psicólogos, gestores públicos e famílias, o Instituto AMMA e a Editora Dandara lançam o livro e e-book “Primeira Infância e Relações Étnico-Raciais” (organizado por Clélia Prestes, Márcio Farias e Marcos Amaral).
Organizada em duas grandes seções teóricas e empíricas, a obra traz contribuições densas e transformadoras:
- Parte I – Referências sobre Infâncias: Debates teóricos conceituais abordando a violência psicológica em contextos de creche, o papel dos brinquedos e artefatos de matriz africana na interrogação da branquitude, as críticas ao modelo médico-colonial e o direito das crianças negras à felicidade e ao afeto.
- Parte II – Pesquisas sobre/com Crianças: Relatos das experiências práticas de campo, como o Projeto Kiriku e as Afrotecas em Santarém (PA), as Brinquedotecas Itinerantes em São Francisco do Conde (BA), os estudos sobre a infância em comunidades quilombolas no Maranhão e a constituição das crianças na diáspora haitiana no Brasil.
A publicação oferece ferramentas fundamentais para a implementação efetiva da Lei 10.639/03 desde a creche, instrumentalizando a comunidade acadêmica e os profissionais da ponta para a construção de pedagogias verdadeiramente libertadoras e humanas.
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Aprofunde seus conhecimentos e transforme sua prática pedagógica e de cuidado. Acesse o material na íntegra e fortaleça a luta por uma infância antirracista. Acesse: https://www.ammapsique.org.br
FICHA TÉCNICA DO LIVRO: PRESTES, Clélia; FARIAS, Márcio; AMARAL, Marcos (Org.). Primeira infância e relações étnico-raciais. São Paulo: Editora Dandara; Instituto AMMA Psique e Negritude, 2024. 336 p.
