Você já parou para pensar sobre como o racismo estrutural afeta os primeiros anos de vida de uma criança? Quando pensamos na primeira infância (período que vai do nascimento aos 6 anos), costumamos associá-la a descobertas, brincadeiras, afeto e aprendizado. No entanto, para milhares de crianças negras no Brasil, essa fase também é atravessada por barreiras invisíveis — e muitas vezes brutais — que impactam diretamente sua saúde física, mental e o seu direito pleno de ser criança.
Para jogar luz sobre esse debate urgente e oferecer caminhos concretos de transformação, o AMMA Psique e Negritude — instituição com mais de 30 anos de legado na produção de conhecimento em saúde mental e relações raciais — acaba de lançar a primeira edição do Caderno de Pesquisa Caminhos (Vol. 1): Saúde, Infâncias e Relações Raciais.
Se você é educador(a), profissional da saúde, psicólogo(a), pesquisador(a) ou alguém comprometido com a construção de uma sociedade mais justa e antirracista, esta é uma leitura obrigatória.
O que você vai encontrar no Caderno Caminhos Vol. 1?
Organizado por Márcio Farias, este primeiro volume reúne investigações rigorosas, relatos de experiências comunitárias e reflexões profundas sobre como articular pesquisa, formação e políticas públicas em prol do bem-estar das infâncias negras.
Confira alguns dos destaques que compõem esta edição:
1. Confluências Metodológicas e o “Aquilombar” no Fazer Científico
Por Clélia Prestes, Marcos Amaral e Nathália Machado (AMMA)
Como produzir ciência de forma ética, afetiva e politicamente engajada? Inspiradas nos ensinamentos do mestre Nego Bispo, as autoras mostram como a confluência de saberes entre seis grupos de pesquisa de diversas universidades do país permitiu construir uma metodologia que escuta ativamente as crianças, suas famílias e territórios, articulando as dimensões psíquica e política do cuidado.
2. O Impacto da Violência Armada nas Primeiras Infâncias da Maré
Por Tainá Alvarenga e Gisele Martins (Redes da Maré)
Em um relato forte e necessário, as autoras analisam como o cotidiano de operações policiais no conjunto de favelas da Maré (RJ) viola direitos fundamentais. A interrupção de aulas, o fechamento de unidades de saúde (SUS) e o trauma contínuo vivenciado por crianças de 0 a 6 anos revelam as marcas profundas da violência de Estado no desenvolvimento infantil.
3. Crianças Negras e o Direito à Educação com Alegria
Por Míghian Danae
A escola tem sido um lugar de acolhimento ou de silenciamento para as crianças negras? A professora Míghian Danae defende uma pedagogia pautada na alegria e na escuta sensível, resgatando a alacridade (conceituada por Muniz Sodré) e o brincar como atos políticos de resistência, pertencimento e emancipação.
4. Impactos do Acesso à Creche na Saúde da Primeira Infância
Por Camila Fernandes, Leonardo Silveira, Huri Paz e Matheus Gato (AfroCebrap)
A creche pública é muito mais do que um espaço de cuidado: é um divisor de águas na segurança alimentar e no desenvolvimento emocional das crianças. Os autores evidenciam o papel vital das creches no combate à desnutrição e discutem as profundas desigualdades raciais e territoriais no acesso a esse direito fundamental.
5. Pesquisa Aplicada, Políticas Públicas e Saúde Mental Transnacional
O caderno traz ainda uma nota sobre a pesquisa internacional liderada por Emiliano de Camargo David sobre internação, abstinência e racismo (em contextos no Brasil, Colômbia e EUA), além de artigos sobre como a pesquisa aplicada deve qualificar as políticas públicas e o fazer da Psicologia brasileira. Para fechar, uma seleção especial de dicas culturais e de leitura no campo do antirracismo e da saúde mental.
Cuidar das Infâncias Negras é Construir o Futuro
Construir um futuro em que crianças negras possam crescer livres, saudáveis, acolhidas e plenas em sua humanidade não é apenas um dever do Estado, mas um compromisso ético de toda a sociedade.
O Caderno Caminhos Vol. 1 é um convite à reflexão, ao afeto e à ação coletiva. É um material rico, fundamentado e essencial para transformar práticas profissionais e fortalecer redes de cuidado antirracista.
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